25.4.14

Outro

Vivo em uma constante fraude, um interminável espetáculo teatral, uma união de frases prontas e gestos minimamente calculados, para enganar a todos. Porque eu sou a farsa, eu sou o fardo de prosas ensaiadas, eu sou um fantoche de mim mesmo. Burlando minhas impressões, moldando minhas ideias e sabotando minhas próprias vontades, vou projetando e interpretando, para diversas as plateias e incontáveis circunstâncias, a parte de mim que melhor convir. 

Deixo que acreditem que eu seja o que minhas palavras dizem e o que meus movimentos coordenam, mas que de fato jamais fora. E todos aceitam, acreditam, quase sempre aplaudem o que tão bem finjo ser, pois convém. Convém que ninguém jamais entenda e que cada ambiente seja cômodo para que eu assuma uma nova camuflagem. Para que me esconda dos perigos de todos, dos riscos de ser um ventrículo de mim mesmo, para que, quando atingido, não seja eu o ferido e sim meu disfarce. 

E no fim de cada dia, de cada momento e de cada ato, me desmonto. Deixo que as cordas do meu comando se recolham sem mim e eu possa pensar meus próprios pensamentos, desengasgar minhas palavras e ser, ainda que pouco, o eu mesmo sem outro de mim.

20.4.14

Limite

Eu tenho medo que minhas palavras soem mais do que apenas palavras e digam mais do que deveria ser dito. Medo que minha compreensão vá além das verdades e me faça temer mais do que deveria ser compreendido. Medo que os meus medos sejam mais do que apenas temores e que, por medo de perder a todos, eu já os tenha perdido.

Temo que meus sentimentos ultrapassem a fronteira da razão, me tornando um hipersensível irracional. E que meus pensamentos percam o sentido, reduzidos à delírios de fundo emocional.

Questiono se o que passou de fato passou, ou se ficou para legar os danos que me causou. Mas talvez agora, para temer memórias e reivindicar a glória, já seja um tanto tarde. Regido por medos e tão bem seguido por paranoias, ultrapassei o limite da sanidade.

31.12.13

Inconcreto

Nada de concreto tive, já dizia eu, durante uma vida de incertezas e promessas, existindo sob a esperança de também existir, mas vivendo, sob algo que perdurasse; pois nem mesmo este solo, seja ele sagrado ou maldito, pela graça da eternidade será mantido. Nem que eu permaneça aqui, presente em físico e em mente, para todo presenteado pelo tempo eminente, ei de me tornar concreto. Mas se eu sucumbir ao evanescer da vida, ela, que há de cuidar da minha não mais existência, esta sim se deleita do direito de perdurar, pois somente a morte se concretiza.

Já lhe peço eu, mas morto, que dê-me o corpo ao fogo para que me torne pó, pois, me bastando toda uma vida de existência não concretizada, dispenso o destino de jazer inconcreto sob o solo em concreto.