27.6.11

Por baixo do capuz que manchou a neve

A escova deslizava suavemente pelos cabelos, como uma folha que percorre livremente o percurso da correnteza de um rio, cabelos esses num forte tom de bronze. Emoldurava o angelical rosto infantil, suavizava a postura de mulher, juntava-se à brisa na dança do vento. Era como um vento que podia ser visto, tremulava ferozmente, escapava entre os dedos, parecia desmanchar-se com um simples toque. Repousava atrás das orelhas como se indicasse inocência, caía sob os ombros como trunfo de sedução, aquele ruivo flamejante era o coração que palpitava na menina que se tornava mulher. 

O inverno vinha e não poupava. 
A neve vinha, quebrava galhos, congelava e pousava.

Neve, tão branca, pura, mas tão sombria. A garota, que caminhava como se não notasse o frio, manchava o neve com seu capuz vermelho. Era como sangue que gotejava na neve tão branca, tão pura. Era como um pássaro de fogo em uma luta falha contra o inverno. Fina lã vermelha, flamejava com os flamejantes cabelos ruivos.

- Diga garota, à mim que não sois digno de vossa delicada presença, de onde trazes o magnífico calor envolto de teu corpo? - Sussurrou o lobo, em desconcertante tom de voz, arfando.

- Não se acanhe diante de minha presença, velho lobo. Minha senhora sente frio, e só o meu calor não lhe basta. Venha até mim! - Sugeriu a doce e generosa voz, em um gesto de acolhimento.

O lobo, por sua vez, acomodou-se junto à garota naquele aconchegante metro de lã vermelha. Em um ato de carinho, a garota deslizou a mão por cima da lã que cobria o cão, tirando de algum lugar um objeto. Abraçou o lobo e sussurrou:

- Dê-me o teu calor, velho lobo, e eu lhe mostro de onde trago o meu!

Ergueu o braço e, em um gesto quase que imperceptível, cravou o afiado objeto no corpo do animal. Houve um uivo! Um forte uivo que fora calado por sangue e uma lágrima. O couro cheio de pelos lhe foi tirado e, agora, a lã se encontrava ainda mais vermelha.

O animal, ali jazeu, pousando junto à neve.
Foi-se a garota manchando o branco tão puro!

19.6.11

Ouça-me!

Ande. Mas ande depressa, pois nessa manhã a chuva fria não lhe dará paz. Ignore a água nos pés, ignore as pessoas, ignore seu cabelo encharcado. Apenas ande logo, algo lhe espera, algo além de uma mera rotina. Aumente o passo, mas mantenha-se firme, continue andando. Ao chegar, entre! Não se despeça da chuva, ela desconhece cordialidade. 

Seque-se. A febre não lhe dará trégua, portanto, esquente-se. Alguém irá lhe oferecer um agasalho, aceite. Agradeça, mas não o olhe nos olhos, vocês ainda não estão preparados. Quando lhe perguntar, não se acanhe, diga seu nome. Tentando alcançar seus olhos, ele perguntará se está bem; não responda ainda!

Pronto, agora pode olhá-lo. Retribua o sorriso e diga como se sente.  

Tente não olhá-lo muito nos olhos, vai ser difícil, mas pelo menos tente. O dia vai parecer brilhar, mas não se engane, lembre-se da chuva. Em alguns minutos ele irá se despedir com o sorriso apagado, devolva-lhe o agasalho, agradeça novamente. Não se esqueça de se despedir, e guarde muito bem para si o brilho que viu naqueles olhos. 

Muito fácil até aí, não? Agora tente esquecê-lo.
Boa sorte!

15.6.11

Quimera de uma bailarina torta

Dançava a bailarina torta.

A melodia do silêncio. A canção do vento nas árvores. Ao tilintar do gelo no copo de whisky. Bailava em busca de um sonho, absurdo sonho para uma bailarina torta. Sapatilhas encardidas deslizantes no velho assoalho; deslizava mesmo entre os cacos da antiga caixinha de música, do antigo copo de whisky. Outro fouette falho, outro hematoma, mais uma lágrima que vinha, outra dose com gelo.

Assim se amargurava a velha bailarina; assim se depenava o velho cisne. Silenciou uma última dose de bebida, cessou o arrastar das sapatilhas e dependurou-se à janela para ver as folhas dançarem. Vento e folhas dançantes ilustrando uma antiga quimera de uma antiga bailarina.

Pulou!

Então a bailarina torta, que bailava em busca de seu sonho, pode sentir a pirueta de seus cabelos ao vento. A dança da brisa em seu corpo. O encontro com as folhas ao abraçar o chão!

Deitou e então... silenciou.


(Inspirado na música d'A Banda mais Bonita da Cidade)