3.7.12

Aquarelando

De início, o sonho se acabava. Depois, tal garota acordava. Em geral, era assim que as coisas aconteciam. Ou, pelo menos, como deveriam. Ali, naquela mente tão firme mas inquieta, tão vasta de silêncio; porém tão farta de histórias para contar. Onde é difícil dizer quando um sonho termina e uma improvável realidade começa. Se acordar fosse uma opção, jamais teria sido esta a escolhida. 

Olhos amêndoados contrastando o dotado de rebeldia cabelo negro. Cachos revoltos indo à lugar nenhum! Manchas de tinta por todo o corpo, por toda a veste, fazendo notável as olheiras no rosto tão pálido. Olheiras estas, entregando o fardo de alguém que passara a noite aquarelando a tela branca. Alguem que derramara sentimentos com um pincel, transformando dor em paisagem. 

Talvez fosse um sonho real demais; talvez uma realidade demasiada surreal. Ou apenas estava ela perdida, sem caminhos, perdida numa vida que nem mais vivia. O dia ganhava cor, a tela ganhava cor, até a face cansada ganhava cor. Só quem não ganhava era tal garota, que aquarelava a própria dor.