3.7.12

Aquarelando

De início, o sonho se acabava. Depois, tal garota acordava. Em geral, era assim que as coisas aconteciam. Ou, pelo menos, como deveriam. Ali, naquela mente tão firme mas inquieta, tão vasta de silêncio; porém tão farta de histórias para contar. Onde é difícil dizer quando um sonho termina e uma improvável realidade começa. Se acordar fosse uma opção, jamais teria sido esta a escolhida. 

Olhos amêndoados contrastando o dotado de rebeldia cabelo negro. Cachos revoltos indo à lugar nenhum! Manchas de tinta por todo o corpo, por toda a veste, fazendo notável as olheiras no rosto tão pálido. Olheiras estas, entregando o fardo de alguém que passara a noite aquarelando a tela branca. Alguem que derramara sentimentos com um pincel, transformando dor em paisagem. 

Talvez fosse um sonho real demais; talvez uma realidade demasiada surreal. Ou apenas estava ela perdida, sem caminhos, perdida numa vida que nem mais vivia. O dia ganhava cor, a tela ganhava cor, até a face cansada ganhava cor. Só quem não ganhava era tal garota, que aquarelava a própria dor.

23.5.12

Descanse, meu ceifador

E ainda que digam que a morte é aquilo que, de pior, pode acontecer ao ser humano... Não! Não julgue tão mal aquilo que lhe dá, de direito, o descanso da vida. Tão honesta aquela que, em teu manto preto, lhe colhe a alma nos braços para que descanse; senhora Dona Morte. Mas tão cruel que és, Senhor Amor... inconvém, com tua foice invisível, ceifando-me cada pedaço de esperança que carrego. E lá se vai o amor, foi-se o ceifador, deixando-me... restando apenas dor. 

Assim como a morte é certa, o amor uma hora vem. Queira descansar, mas não queira amar.

22.2.12

Tão sobriamente puro sentimento

Sentir por ti não pode ser tão errado. É puro, sincero, singelo.
Tão despretensiosamente sinto. Querer sentir de perto, junto à ti,
o dobro do que já tão bom é sentir distante. E é pra sempre;
pra sempre eterno, eternamente fraterno.
Apenas me deixe sentir. Não faz mal, à ninguém, até faz bem.
De tão sobriamente que sinto, este tão nobre e puro
sentimento!

"Em todo o tempo ama o amigo, e na angustia se faz o irmão"
Provérbios 17;17

1.2.12

Imaginação, pra quê te quero

Incrível o poder do pensamento. Quero dizer, não exatamente um poder, mas a proporção magnífica que a mente alcança. A mente é um universo imenso, maior do que qualquer tipo de universo, seja físico ou espiritual, sei lá. É uma coisa infinita que não para nunca. E ainda dizem que depois de adultas as pessoas perdem a imaginação, olha só, como se a mente não fosse capaz de criar. Imaginação não é ser doido que acredita em coisas surreais, e sim algo que te mostra a vida além da realidade corriqueira.

A imaginação é você olhar pras árvores e pensar em quantos pássaros já devem ter passado por ali. Olhar pra uma calçada de ladrilhos e conseguir imaginar um senhor ladrilhando um por um aquele comprido caminho, por que sim, ele esteve ali. É você olhar pra uma fotografia e tentar adivinhar quem estava fotografando. Imaginar a própria vida se você tivesse seguido por caminhos distintos dos escolhidos.

Nossa mente é capaz de processar, salvar, recuperar, excluir, projetar, etc... tudo aquilo que por ela passar. A mente é um álbum de fotografias, uma estufa de aromas, um cardápio de sabores, uma sinfonia de sons, uma biblioteca de histórias, um arquivo de informações, um acervo de lembranças. Um ateliê de sentimentos!

30.1.12

De tão sonhador, ingênuo se foi

Foi por caminhos além da razão, vivendo por sonhos cheios de cores que hoje não passam de devaneios cinzas. Aquilo que um dia fez sentido, agora é faísca no curto circuito de seus sentimentos, em suas lembranças tão descarrilhadas. De tão ingênuo, sonhou mais do que bons sonhos, sugou todo o espectro de ilusão existente. Fez do céu a sua fonte de vida, precisaria do céu para viver, logo o céu que é inalcançável. Fora alto demais por este céu, e agora treme ao chão, de tão tolo e ingênuo que conseguiu ser. De tão sonhador, ingênuo se foi, catando caquinhos de um sonho sem cor, no solo frio que lhe aguarda.

19.1.12

Pés nos chãos, sem correr nem pular

Efusividade, hiperatividade. É incontrolável a vontade de correr, abraçar, apertar, envolver, proteger. Te ter nos braços e guardar-te. Ou nem te ter por perto, mas ainda sim proteger. Tomar todas as suas dores, resgatar todos os seus sorrisos, aliviar suas quedas e te levantar. Fazer o que eu puder fazer, sentir o que puder sentir, por você. Qualquer rocha seria um mero cascalho, qualquer abismo seria um degrau insignificante. Mas eu não poderia mais segurar o mundo por você, não. Fui além do egoísmo fazendo isso, pra me sentir melhor, vendo que tu estava bem. E quando larguei, percebi que nunca o segurei de fato; seu mundo sempre pertenceu a si mesmo.

Meu mundo... eu larguei em algum lugar. Mas ei de encontrá-lo, pois os dos outros já não posso mais carregar.

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OBS: Esse texto foi escrito no ímpeto de um sentimento confuso e impossível de se mensurar claramente. Por esse motivo as palavras soam tão confusas, equivocadas e com pouco sentido.