Vivo em uma constante fraude, um interminável espetáculo teatral, uma união de frases prontas e gestos minimamente calculados, para enganar a todos. Porque eu sou a farsa, eu sou o fardo de prosas ensaiadas, eu sou um fantoche de mim mesmo. Burlando minhas impressões, moldando minhas ideias e sabotando minhas próprias vontades, vou projetando e interpretando, para diversas as plateias e incontáveis circunstâncias, a parte de mim que melhor convir.
Deixo que acreditem que eu seja o que minhas palavras dizem e o que meus movimentos coordenam, mas que de fato jamais fora. E todos aceitam, acreditam, quase sempre aplaudem o que tão bem finjo ser, pois convém. Convém que ninguém jamais entenda e que cada ambiente seja cômodo para que eu assuma uma nova camuflagem. Para que me esconda dos perigos de todos, dos riscos de ser um ventrículo de mim mesmo, para que, quando atingido, não seja eu o ferido e sim meu disfarce.
E no fim de cada dia, de cada momento e de cada ato, me desmonto. Deixo que as cordas do meu comando se recolham sem mim e eu possa pensar meus próprios pensamentos, desengasgar minhas palavras e ser, ainda que pouco, o eu mesmo sem outro de mim.
GENIAL! Quem de nós nunca dissimulou, nunca viveu um personagem ou apenas expôs uma parte de si, justamente aquela que caberia melhor naquele momento? Pra viver em sociedade é preciso se adaptar aos mais diversos cenários, é um eterno exercício de castrar-se e permitir-se. Vivemos investigando onde estamos pisando e o que de nós podemos colocar à mostra, somos tantos em um só que às vezes até me pergunto: quem sou eu quando estou sozinho, cara a cara no espelho?
ResponderExcluirGrande abraço!